Queixa coletiva: violência policial no dia da greve 11/12/25
Queixa coletiva: violência policial no dia da greve 11/12/25
Descrição
No dia 11 de dezembro, fomos a uma manifestação. Fomos exercer um direito básico, acreditando que estar juntas, em espaço público, era seguro. Não era.
No fim da manifestação, centenas de pessoas permaneceram em frente à Assembleia da República. O ambiente era calmo. Não havia confrontos, não havia avisos, não havia ordens para dispersar. E, ainda assim, sem qualquer aviso, a polícia começou a disparar contra todas as pessoas que ali estavam.
Ninguém sabia que poderia haver tiros. Estavam presentes pessoas de todas as idades. Em poucos minutos, um momento de participação cívica transformou-se num cenário de pânico, medo e sangue. Cinco pessoas foram baleadas na cabeça. Dez foram atingidas noutras zonas vitais do corpo, como o peito, o tronco e o pescoço.
É difícil explicar o que é perceber que se podia ter morrido ali. Que se podia ter ficado cega. Que se podia ter saído para sempre diferente. Todas nós estávamos ali apenas a manifestar-nos. E foi por pura sorte que isso não aconteceu.
Os disparos começaram por volta das 19h37 e continuaram durante quase uma hora. Fomos socorridas primeiro por outras pessoas que estavam na manifestação e, mais tarde, pelas equipas de emergência. A calçada em frente à Assembleia ficou coberta de sangue. Uma a uma, as vítimas entravam em pânico nas ambulâncias por terem sido baleadas.
Para além dos tiros, muitas pessoas foram violentamente agredidas com bastões. Houve quem saísse com hematomas profundos, dores intensas e lesões graves. A maioria das vítimas teve de ir para o hospital nessa noite. Algumas levaram pontos e fizeram exames urgentes. Outras têm relatórios médicos que comprovam que as marcas no corpo foram causadas por agressões.
Passados meses, ainda há quem viva com as consequências desse dia. Há quem tenha perdido a audição. Há quem tenha dificuldades de concentração, dores constantes no corpo e dores de cabeça severas. Há feridas que não se veem, mas que continuam bem abertas.
Criámos esta campanha porque sabemos que isto não foi normal, não foi aceitável e não foi legal. E porque sabemos que, se ficarmos em silêncio, pode voltar a acontecer - connosco ou com outras pessoas.
Já temos apoio de advogados e vamos avançar com uma ação coletiva para pedir responsabilidades. Não o fazemos por vingança. Fazemo-lo porque acreditamos que ninguém deve ter medo de sair de casa para se manifestar. Porque ninguém deve sair de um protesto com uma bala no corpo.
O grupo está a ser acompanhado por um advogado e uma advogada estagiária e iremos proceder a 3 queixas: no tribunal administrativo, queixa crime no DIAP (Departamento de Investigação e Ação Penal) e processo disciplinar no IGAI (Inspeção Geral da Administração Interna). Precisaremos de pagar 1.500 euros ao advogado já em fevereiro para que possa iniciar o processo, prevendo que o valor total possa chegar aos 5.000 euros, dependendo do tempo que possa levar para concluir o processo.
Iremos também pedir apoio jurídico para não haver mais custos associados, caso, por exemplo, o juiz peça técnicos para fazer vistorias ou precisarmos de fazer recurso.
No último mês estivemos a tentar recuperar deste verdadeiro pesadelo. Algumas de nós demoraram semanas a conseguir dormir sem reviver o que aconteceu. Três das vítimas deram uma entrevista à televisão, com imagens gravadas no próprio dia, que ajudaram a tornar pública uma realidade que muitas pessoas desconheciam.
Esta campanha é sobre nós, mas é também sobre todas as pessoas que já sofreram violência policial e nunca tiveram meios para se defender.
Se puderes contribuir, qualquer valor ajuda. Mesmo pouco faz diferença. Se não conseguires doar, pedimos-te que partilhes esta campanha. A visibilidade também é uma forma de proteção.
Estamos vivas. E por isso não vamos ficar caladas. Obrigada por nos ajudares a transformar o medo em justiça.
Benefit Porto
Valor angariado num evento de benefit do dia 05/03 em Lisboa. Agradecemos aos coletivos organizadores (Mal Criadas e Markize) e às artistas que tocaram para a causa.
Valor angariado no evento de benefit do dia 21/02 no RDA (Lisboa). Agradecemos ao grupo que organizou, cozinhou, e às artistas que tocaram para a causa (DJ Sonic Boomer, DJ Boiler Room).